domingo, 22 de fevereiro de 2009

Matilhas e impressões

Após trinta e seis anos de ausência, piso novamente os amplos calçadões da cidade de Santiago de Chile. É emocionante rever as amplas avenidas cercadas por uma arquitetura austera de estilo eclético que reflete em parte a alma reservada e conservadora do seu povo. No entanto, essas características também é fruto de algumas características da sua própria geografia; pesada, relativamente baixas estas construções resistem com firmeza os abalos sísmicos que sacodem o país de tempos em tempos. À sua volta ergue-se a majestosa e imponente Cordilheira dos Andes que não só protege como uma fortaleza de pedra os limites continentais do país, mas, sobretudo, nos dá a sensação de espremer e empurrar o seu território pedregoso contra as águas geladas do Pacífico. Esta sensação talvez explique o motivo pelo qual o Chile é considerado o país mais comprido do mundo, o que o possibilita conter em seu território os climas mais díspares: no sul predomina o clima gelado do continente Antártico, no norte, o mais seco deserto do mundo, o deserto do Atacama.
Nas ruas ainda se vê matilhas de cães abandonados caminhando tranquilamente pelas ruas, que tanto nos chamou a atenção à trinta anos passados; mas o que nos impressiona é que estes animais parecem bem nutridos e pela afetividade com eles se aproximam da gente, percebe-se que não são mal-tratados. Ademais, obedecem completamente as sinalizações que controlam o intenso trânsito da sua principal avenida, a Avenida O’Higgens. No sinal vermelho simplesmente os cães param e aguardam no calçadão; mas quando o verde acende, lá vão eles todos “sererepes” atravessando a avenida como se fosse gente grande mesmo. Possivelmente, seguem o comportamento dos pedestres, mas dá a impressão que eles entendem das normas de trânsito melhor que a gente mesmo.
Essas são apenas breves observações que observamos neste curto período que passamos em Santiago de Chile, antes de mergulharmos no que nos interessa de fato neste país: a sua história política recente, onde houve no passado a primeira tentativa de construção do socialismo através da via democrática e seu desfecho trágico: o golpe militar mais sangrento deste continente que resultou na morte de milhares de jovens, entre eles, muitos asilados políticos brasileiros. Em função disso, ao me deparar frente ao Palácio Presidencial de La Moneda, parecia ainda escutar o último discurso de Salvador Allende entrecortado e mesmo interrompido pelo intensivo bombardeio a La Moneda pelos aviões dos militares golpista. E no final, a emoção ainda foi maior quando me deparei frente ao Monumento dos Mortos e Desaparecidos Políticos pela Ditadura de Pinochet. Não encontrei entre eles nenhum conhecido, mas confesso-lhes que fiquei muito emocionado; afinal, a maioria dos mortos e desaparecidos era formada por jovens que ainda não tinham alcançado os vinte cinco anos de idade. Espero que os depoimentos tenham transmitidos de fato as minhas emoções e que possam contribuir bastante para a elaboração deste documentário.
Essas são algumas impressões sobre a nossa viagem ao Chile, mas o que posso afirmar com certeza, é que voltamos do Chile com a sensação de dever cumprido, e já visualizando o que poderíamos encontrar pela frente na nossa próxima viagem a antiga Alemanha Oriental, que se dará já nos próximos dias.
Até mais!


Afonso Lanna
brasil
23 - 02 - 09

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